Pecado sexual: eu, o outro e o Diabo

Ela é o Diabo. É o próprio Diabo. Pois se apossou de mim contra minha vontade. Matá-la? Sim. Só há duas saídas: ou matar minha esposa, ou matá-la. Porque é impossível viver dessa maneira.”

Novela “O Diabo” de Tolstói.

Este é um trecho de uma novela escrita pelo grande autor russo Leon Tolstoi em 1898. A obra possui um nome bem sugestivo: “O Diabo”. E, nos conta a história de Evguêni, um homem, que apesar de ser visceralmente apaixonado por uma camponesa, casa-se com uma aristocrata, por conveniência. E, se vê envolto em adultério, culpa e angustia.

O texto acima faz parte do desfecho dessa narrativa e expressa os últimos pensamentos do homem com relação às mulheres da trama. Note que para tentar aplacar sua consciência, ele desloca a responsabilidade para o Diabo e o identifica na mulher que era alvo de sua paixão. Além, de colocar-se, passivamente, como um “possuído” que não age com autonomia. Evguêni decide assassinar o suposto “Diabo” – representado pela amante – ou acabar com a vida de sua esposa para poder viver tranquilo.

Diferente da época na qual foi escrita essa história, hoje, se lida de forma menos dramática com as amantes. No entanto, em muitos círculos cristãos permanece a mesma dinâmica de esquivar-se das responsabilidades, colocando a culpa em Satanás, principalmente quando a transgressão é de cunho sexual.

Lembro-me de um irmão que ao invés de confessar que olhava para as moças da igreja com cobiça, disse que desejava uma irmã porque ela esta sendo influenciada por espírito maligno. Por que ainda existe esse discurso?

Reconhecer que do coração procedem maus desígnios é desconfortável.

Porque é doloroso assumir que escolhemos conscientemente o pecado. É constrangedor aceitarmos a corrupção de nossas intenções. É humilhante percebermos, como declarou o profeta Oseias, com relação ao povo de Deus:

A tua ruína, ó Israel, vem de ti…” (Os 13.9). Ou, como esclareceu Jesus: “do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição…” (Mt 15.19).

Realmente ter uma visão bíblica é desconfortável, porem, certamente, é mais honesta e madura. Isso não deve ser entendido como negação cética da existência do nosso adversário.  C. S. Lewis nos adverte que os demônios “comtemplam um materialista e um mágico com o mesmo prazer”, esse por superdimensioná-lo, aquele por subestimá-lo.

Colocar Satanás no seu devido lugar é nosso desafio.

  • Ele é um catalisador do caos.
  • Uma força opositora ao evangelho.
  • O grande acusador e tentador (Mt4).
  • Um mentiroso que intenta destruir qualquer possibilidade de que desfrutemos plenitude sexual.

A bíblia o descreve como o “Príncipe deste século” e “deus desta era” (Jo 12.31; 2 Co 4.4), tais títulos sugerem sua influência sobre a sociedade organizada, e sobre um sistema de pensamentos que visa distanciar o homem de Deus e alavancar o erro e a morte.

No entanto, Jeremias nos diz: “Por que, pois, se queixa o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.” (Lm 3.39). Queixa-se dos problemas, daquilo que nos falta, da conduta dos outros ou do Diabo é inútil, se não estamos dispostos arcar com a responsabilidade e as consequências de nossos erros. Dar a Satanás um papel de protagonista dentro do enredo de desobediência pessoal é um subterfugio infantil que nos aprisiona ainda mais aos nossos vícios. Ele, portanto, é coadjuvante.

Episódio retratado em tela por Rob Leinweber

Para nos orientar neste tema, recordemos a abordagem do profeta Natã, na ocasião em que confrontou o rei Davi por conta do adultério com Bate-Seba e do assassinato de Urias. O diálogo começa com uma história sobre a maldade de um homem rico. A princípio o rei não entendeu que seu pecado escondido era o tema da conversa, então o profeta disse: Tu és o homem.” (2 Sm 12.7). Sim! Aquele homem rico e mal da história que acabara de contar.

Imagine se Natã tivesse dito: “A culpa é do demônio, é claro que Bate-seba estava cheia de ‘pomba-gira’ e Urias foi morto por Satanás. Você foi, inocentemente, levado pelo Maligno sensual ao adultério”.

Felizmente, Natã foi “profético” sem fornecer justificativas “espiritualistas” para o pecado. E, a história de Davi terminou em confissão e arrependimento. Esse é o caminho correto para lidarmos com a transgressão sexual.

Em contrapartida, na ficção de Tolstoi, a obra nos traz dois finais sugeridos. Em um deles, Evgueni mata sua amante – a quem chama de “Diabo”. No outro, ele se suicida.

Na vida real, também termina assim. Sem assumir responsabilidades, ou ferimos os outros, ou –nos afastamos, definitivamente, da vida plena de Deus.

Brena Riker é líder do Ministério Ser e pastora da Igreja Batista Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. Formada em Letras pela UFPA e em Fundamentos em Aconselhamento na Jocum Chile. Casada com David Riker e mãe da Nataly e do Pedro.

2 comentários sobre “Pecado sexual: eu, o outro e o Diabo

  1. Que interessante…de fato tendemos sempre a querer colocar integralmente toda reaponsabilidade do pecado em satanas. Pra ele è até melhor q permaneçamos nesse engano, pois assim, não haverá distanciamento do pecado e sim acomodação com ele. Parabéns pelo texto.

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