Como NÃO pregar o evangelho para alguém que vive a homossexualidade

No inicio do nosso ministério focamos a evangelização de travestis e homossexuais em zona de prostituição. Nossa abordagem era a amizade. Tentamos conhecer e participar, o mais próximo possível, da realidade deste grupo social tão discriminado. Essa não é uma maneira fácil de comunicar as boas novas, pois não se trata de um encontro pontual com alguém. A intenção era manter um diálogo contínuo. Visitá-los em suas casas. Demonstrar interesse genuíno e insistente por suas jornadas existenciais. Acreditávamos que esta era a forma mais eficaz de influenciar alguém e aproximá-la de Deus.

Sempre me lembro desse tipo de evangelização quando cristãos me perguntam sobre a maneira correta de anunciar o reino de Deus aos homossexuais presentes em suas famílias, escolas, vizinhanças ou trabalhos. Entendemos  que somos desafiados por Cristo, o “amigo dos pecadores” (Mt 11.19), a estabelecer laços de amizade sadios com eles, antes de tentarmos falar qualquer coisa. Portanto, como primeira contribuição deste texto, quero deixar claro: não veja um indivíduo com atrações homoafetivas como seu inimigo.

Pessoas na homossexualidade não são seus inimigos.

A amizade é a forma de amor alicerçado naquilo que temos em comum*. Mas, o que um cristão sexualmente abstinente ou tradicionalmente casado tem em comum com alguém que vive a homossexualidade? Ambos são humanos. São objetos do amor irremediável de Deus. E, são dignos de respeito.

Tendo isto em mente, nunca devemos pregar o evangelho com um ar de superioridade. Somos todos filhos do mesmo pai, a saber, Adão. Apesar do antagonismo de conceitos, estamos no mesmo nível. Somos a única humanidade existente. O problema é que, com frequência, vemos “o ser humano a partir de suas doenças”, como afirma o teológo e psicólogo Jean – Yves Leloup. Nutrimos um olhar inquisitivo, incapaz de dialogar. Uma postura surda aos anseios do próximo.

Não haja com ar de superioridade.

Muitos desenvolvem o ministério do “cisco do olho” (Mt 7.3), ansiosos em acabar com os problemas dos “inferiores”, causam “cegueira” em quem deveriam ajudar. Além, é claro, de negligenciar o cuidado com suas próprias mazelas.

Nada há mais humano do que a dignidade. É uma qualidade universal. Está no bojo daquilo que nos foi dado em Gênesis 1.26: “a imagem e semelhança de Deus”. Os indivíduos, por mais perdidos que estejam, possuem o reflexo da pessoa de Deus. E, a aplicação desta verdade independe se tais sujeitos vivem a homossexualidade ou a heterossexualidade. Logo, na proclamação do reino de Deus não desrespeite as ideias, a consciência, a história e a liberdade de ninguém. O evangelho é uma proposição do céu, não uma imposição religiosa.

Um exemplo de como não ministrar homossexuais esta em Lucas 9: 54 -56: “Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir? Jesus, porém, voltando-se os repreendeu e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.” Perceba que Jesus, se auto denominou como “Filho do Homem”, um título que o aproxima da nossa raça adâmica. Portanto, pare de pedir que Deus desça fogo sobre os gays. Lembre-se de que espírito somos, e de nossa inegável humanidade compartilhada com eles.

O amor de Deus não é uma conquista de esforço pessoal.

Além do que já está posto, vale salientar que o amor de Deus não deve ser pregado como uma conquista baseada no desempenho pessoal. O Senhor não começa a amar o homem a partir do momento em que este passa a crer, pelo contrário, “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Rm 5.8). E, mais: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19). Esse é um amor inabalável e derramado a todos. Amor que fez Pedro reconhecer “que Deus não faz acepção de pessoas” (At 10. 34).

Quando norteamos a evangelização por esse princípio não tratamos os homossexuais como seres diferenciados, como sujeitos mais impuros do que os outros, ou como uma espécie odiada por Deus com mais veemência. São pessoas normais que podem estar perdidas assim como qualquer outra.

Por isso, ao dialogarmos com eles, devemos nos concentrar na pregação do amor de Deus, na pessoa de Cristo e na chamada ao arrependimento que é dirigida a todo homem, e não na condição homossexual do nosso interlocutor.

O que quero deixar claro é: esqueça, por um momento, que está diante de um homossexual. Arrependa-se do seu asco preconceituoso direcionado a esse público. E, “desarme” sua abordagem evangelística de todo tipo de “guerra santa” contra os gays.

Arme-se, sim, da fraternidade, da solidariedade e proclame a “verdade em amor (Ef 4.15). Não centralize sua pregação na homossexualidade de ninguém. Concentre-se na necessidade que todos têm de conhecer o amor e a restauração propostas por Deus.


David Riker é líder do Ministério Ser, pastor da Igreja Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. É teólogo pelo STBNA, formado em Arte-educação pela UFPA e graduando em Filosofia pela Uniasselvi. Marido da Brena Riker e pai da Nataly e do Pedro.

Um comentário sobre “Como NÃO pregar o evangelho para alguém que vive a homossexualidade

  1. Muito obrigada pela palavra Pastores, esse é um assunto que sempre me deixa confusa, e não somente no sentido homossexual, mas a abordagem para pessoas não cristãs de um modo geral, pois inconsciente (ou conscientemente) tendemos a acreditar que pelo fato de sermos os conhecedores da verdade, estarmos com certa superioridade, e isso sim é o pecado.
    Vou meditar muito nas passagens expostas no seu texto.
    Muito obrigada e que o Senhor abençoe grandemente seu Ministério.

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