Fica comigo?

Leia com atenção o convite abaixo:

– “Desde o momento em que te vi, não parei de pensar em você. Tenho orado à Deus (pausa para falar em línguas brevemente) e intercedido por sua vida. Creio que antes de nos conhecermos nossas almas ‘evangélicas’ já se interligaram nas regiões celestes, e, definitivamente, eu te amo. O que sinto por você é muito forte e, certamente, inspirado pelo Espírito Santo. Poderíamos sair para conversar sobre as Escrituras ali no escurinho…”

E, então vem o que a galera chama de fica. Uma relação instantânea, sem compromisso, mas com muita compressão dos corpos entre si, e beijo na boca a vontade. No fundo, são as chamadas “preliminares” da relação sexual praticadas por casais que ainda não decidiram se vão namorar ou transar (não necessariamente nesta ordem).

Pode até parecer um pouco exagerada tal descrição, no entanto muitos dos atuais “ficas” entre cristãos começam exatamente, a partir dessas ideias: A sedução inicia-se com temas espirituais, conversas sobre Deus, oração ou a bíblia. Isso confere um ar de espiritualidade à conquista. E “gospealiza” a prática pecaminosa usando termos do “evangeliquês” para melhor adequá-la ao ambiente da religião. Vemos muita carnalidade maquiada de espiritualidade dentro do arraial evangélico dos nossos tempos.

Nessas ocasiões acontece a chamada “caça do amor” que envolve premeditação, um ritual bem articulado e intenções manipulativas. Muitos cristãos estão viciados neste processo. Presos na sensação de poder, de controle, e na auto valorização que o ambiente da conquista proporciona.

Depois de usufruir, ou como dizem os jovens, “comer” uma pessoa, o prazer acaba e partem para um “fica” ou uma “transa” mais interessantes. Assim, assumem riscos cada vez maiores, a fim de aumentar a adrenalina do processo.

Muitos homens cristãos usam sua boa reputação “espiritual” para atrair mulheres. Ouvi sobre um suposto missionário que, depois de fazer um curso de aconselhamento, tornou-se um galanteador melhor. Isso, uma vez que aprendeu sobre a carência emocional feminina causada pela falta de relacionamento com o pai, e de como elas caem facilmente em conversas de cheias de falso romantismo, toques estratégicos, elogios baratos e sentimentalismo eloquente.

É importante notar que tais evangélicos sempre usando a palavra “amor” para denominar o que a bíblia chama de luxúria (Cl 3.5). Luxúria é o ato de usar o outro para satisfação própria. Apesar de ser confundida com amor, sua dinâmica é diametralmente oposta a ele. O amor dá, cuida, renuncia, espera e centraliza-se no beneficio ao próximo. Luxúria tira, abusa, exige, é imediatista e centraliza-se na maximização do prazer do “eu”. Sempre a intenção da luxúria é pecaminosa.

Jesus radicalizou a teologia da “intenção” (Mt 5.28). Antes dele, a pureza era medida, objetivamente, pela condição do corpo e não dizia respeito à subjetividade das intenções, nem ao território secreto das motivações. Cristo escancara o campo da mente, revelando-a como o útero da transgressão posteriormente consumada no corpo.

As igrejas estão cheias de cristãos que não são verdadeiros em suas intenções, porque não querem andar na luz, pois suas obras são reprováveis. Cristo disse: “…todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para luz, a fim de não serem arguidas as suas obras” (Jo 3.20).

Os evangelhos nos falam de uma geração que amou “mais as trevas do que a luz” (Jo 3.19). Sempre teremos essa escolha: trevas ou luz. A pureza sexual nunca será uma realidade se não injetarmos luz em nossos pensamentos e intensões.

Vamos, então, colocar um pouco de luz sobre as reais motivações do convite ao “fica”:

“Oi. Desde o momento em que te vi, fiquei excitado. Ultimamente, estou como muita vontade de me aliviar. A pornografia não tem sido suficiente. Fiquei ‘afim’ beijar na boca, pegar nos seios de alguém, ter uma ereção prolongada, passar um tempo de curtição e depois me masturbar pensando em você. Estou realmente precisando de uma ejaculação. Se der pra me emprestar seu corpo por uns minutos ali, no escurinho, seria muito massa. Ah… amanha também podemos ir juntos a Escola Bíblica Dominical…”.

Se você diria não a esse convite, porque tem dito sim àqueles que usam palavras diferentes para esconder as mesmas intenções? Saia do “escurinho” e viva na luz!

Brena Riker é líder do Ministério Ser e pastora da Igreja Batista Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. Formada em Letras pela UFPA e em Fundamentos em Aconselhamento na Jocum Chile. Casada com David Riker e mãe da Nataly e do Pedro.

Solteirice, abstinência sexual, casamento… Não andeis ansiosos

“Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer” (Lc 12.22), nem sobre quando, com quem e se haveis de casar.

Certo que essa não é uma sentença facilmente praticável, a vejo como um grande desafio. Como caminho sinuoso e confrontador.

A maioria dos cristãos querem casar.

A maioria dos solteiros cristãos quer casar. Desejo legítimo e coerente. Contudo, muitos se veem cheios de ansiedade inquietante, enquanto isso não ocorre.  Andam citando fervorosamente o salmo 40, projetando o matrimônio:

Esperei confiantemente pelo SENHOR; ele (…) me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama”.

Mas… Quem disse que estar solteiro é viver enlameando e em perdição?

É aí que desvendamos a visão macabra que temos de um dos períodos mais construtivos da vida. Ideia que reforça nossa ansiedade.

Arrocho evangélico casamenteiro

Somado a isso temos o arrocho evangélico “casamenteiro”, na qual, o solteiro está no “deserto” e encontrará sua “metade” por meio de inúmeras tentativas amorosas, regadas às ameaças, quase proféticas, tipo: “Vai ficar pra titia.”  A pressão estimula a ansiedade, que por sua vez, denuncia uma imaturidade generalizada.

Esses dias li um texto bastante pertinente da colunista Marta Medeiros que dizia: “A maturidade traz ganhos reais. A ansiedade diminui, a teatralidade também: já não vemos sentido em agradar a todos.” *

É isso mesmo. No teatro forjado pelos esquemas e na cronologia de terceiros nos contorcemos em malabarismos relacionais – por vezes sexuais – para estarmos dentro dos padrões.

Quando, mesmo assim o casamento tarda, vivemos pre-ocupados” ou “pre-habitados” pelo futuro, e enjaulados nele, nos furtamos do único patrimônio que nos foi divinamente emprestado, a saber, o presente.

No fundo, a ansiedade é como tentar, arrogante e ineficazmente, roubar o inviolável. Adquirir senhorio do que só pertence ao Eterno: o amanhã.

Logo, basta-nos aceitar que, diante do porvir, somos ignorantes.

Vós não sabeis o que sucederá amanhã (…) Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa”. (Tg 4.14).

Tais palavras são destruidoras. Deixam em ruinas nossa soberba. E, nos humilha ao revelar que não temos controle sobre o que vamos fazer depois que os ponteiros do relógio andarem. E, mais:

Ao invés disso, devíeis dizer: se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo” (Tg 4.15).

Se você anseia diminuir a ansiedade com relação ao casamento terá que admitir em oração alguns fatos: tudo que tenho é o hoje. Tudo que ignoro se chama futuro. Tudo que quero é o que o “Senhor quiser”. E, pra tudo que queres, há um tempo e um modo (Ec 8.6).

Já que o hoje, acima citado, atende pelo nome de solteirice e abstinência sexual, pensemos sobre elas.

A solidão e as tentações sexuais, realmente, tendem a aumentar a escala da inquietude. Criando a impressão de que quando nos casarmos seremos catapultados para uma dimensão mágica plena de companhia infalível. E, de uma vida sexual “messiânica”, que nos salvará de todas as paixões lascivas do mundo, afinal, com sexo lícito e regular “todos nossos problemas acabarão”.

Essa expectativa “tabajara” é mentirosa (desculpe… Não consegui evitar a piada).

Natã repreendendo Davi.

O rei Davi não deixou de pecar sexualmente, apesar de ser casado com algumas mulheres. E, José do Egito, mesmo na seca sexual, fugiu de uma senhora bem provocadora.

Adão pecou no jardim (lugar tranquilo) comendo a fruta. Daniel decidiu não se contaminar na babilônia (território pagão) comendo legumes.

Isso nos mostra que o ambiente no qual vivemos e nosso estado civil, apesar de nos influenciarem, são apenas duas das diversas variáveis inseridas na complexa decisão diária de permanecermos sexualmente puros.

Colocando em termos claros: se um solteiro não está disposto a arrepender-se e aprender com o Espírito Santo como fugir da imoralidade, não estará interessado nisso quando casar. E, as tentações com relação à pornografia, masturbação e relações sexuais indevidas seguiram presentes.

A pornografia não é uma opção.

Viver com estas expectativas irreais engrossa ainda mais o rio da ansiedade. E, isso, por sua vez, enfraquece a busca pela pureza sexual do solteiro. O erro está em colocar em outro ser humano e nas circunstâncias o senso de plenitude.

Para acalmar os corações ansiosos e, simultaneamente, prepará-los para as dificuldades do mundo dos não casados, gostaria de citar o conceito apresentado por Brennan Manning, no qual, a confiança em Deus é vista como a somatória entre fé e esperança.  A fé na pessoa de Cristo e a esperança na sua promessa. Jesus nos garantiu a “promessa de sua presença (‘Estou convosco todos os dias…’), e a presença de sua promessa (‘Cristo em você agora e sua esperança da glória ao longo da vida’)”.**

Isso significa que não seremos poupados das tentações sexuais e a solidão ocasional, mas Cristo está ali sempre, porque sua presença foi prometida.

Também quer dizer que a fidelidade de Cristo poderá ser comtemplada em qualquer instante e nos saciará. Como a glória que enche o templo e o “satisfaz”. Ele é a promessa completa de Deus, sempre acessível a nós. Uma promessa já realizada que nos habita e nos faz confiar.

E, só a confiança destrói a ansiedade.

Portanto, por meio da confiança e da satisfação em Cristo, é possível deixar andar ansioso com relação à quem haveremos de casar ou transar, pois, no fundo, o contrário disso seria um “anti-andar”, uma paralisia.

É melhor mover-se confiante. Pleno. Cheio.

Como Jesus que, apesar de solteiro, sorriu, dançou, protestou, trabalhou, estudou, produziu, serviu, emocionou, foi emocionado, investiu, discipulou, amou, foi amado, e viveu no presente livre do futuro.

*MEDEIROS. Martha. A graça da Coisa. Ed. LePM. Porto Alegre – RS. 2013.

**MANNING. Brennan. Confiança cega. Ed Mundo Cristão. São Paulo- SP. 2009.

Brena Riker é líder do Ministério Ser e pastora da Igreja Batista Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. Formada em Letras pela UFPA e em Fundamentos em Aconselhamento na Jocum Chile. Casada com David Riker e mãe da Nataly e do Pedro.

Pecado sexual: eu, o outro e o Diabo

Ela é o Diabo. É o próprio Diabo. Pois se apossou de mim contra minha vontade. Matá-la? Sim. Só há duas saídas: ou matar minha esposa, ou matá-la. Porque é impossível viver dessa maneira.”

Novela “O Diabo” de Tolstói.

Este é um trecho de uma novela escrita pelo grande autor russo Leon Tolstoi em 1898. A obra possui um nome bem sugestivo: “O Diabo”. E, nos conta a história de Evguêni, um homem, que apesar de ser visceralmente apaixonado por uma camponesa, casa-se com uma aristocrata, por conveniência. E, se vê envolto em adultério, culpa e angustia.

O texto acima faz parte do desfecho dessa narrativa e expressa os últimos pensamentos do homem com relação às mulheres da trama. Note que para tentar aplacar sua consciência, ele desloca a responsabilidade para o Diabo e o identifica na mulher que era alvo de sua paixão. Além, de colocar-se, passivamente, como um “possuído” que não age com autonomia. Evguêni decide assassinar o suposto “Diabo” – representado pela amante – ou acabar com a vida de sua esposa para poder viver tranquilo.

Diferente da época na qual foi escrita essa história, hoje, se lida de forma menos dramática com as amantes. No entanto, em muitos círculos cristãos permanece a mesma dinâmica de esquivar-se das responsabilidades, colocando a culpa em Satanás, principalmente quando a transgressão é de cunho sexual.

Lembro-me de um irmão que ao invés de confessar que olhava para as moças da igreja com cobiça, disse que desejava uma irmã porque ela esta sendo influenciada por espírito maligno. Por que ainda existe esse discurso?

Reconhecer que do coração procedem maus desígnios é desconfortável.

Porque é doloroso assumir que escolhemos conscientemente o pecado. É constrangedor aceitarmos a corrupção de nossas intenções. É humilhante percebermos, como declarou o profeta Oseias, com relação ao povo de Deus:

A tua ruína, ó Israel, vem de ti…” (Os 13.9). Ou, como esclareceu Jesus: “do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição…” (Mt 15.19).

Realmente ter uma visão bíblica é desconfortável, porem, certamente, é mais honesta e madura. Isso não deve ser entendido como negação cética da existência do nosso adversário.  C. S. Lewis nos adverte que os demônios “comtemplam um materialista e um mágico com o mesmo prazer”, esse por superdimensioná-lo, aquele por subestimá-lo.

Colocar Satanás no seu devido lugar é nosso desafio.

  • Ele é um catalisador do caos.
  • Uma força opositora ao evangelho.
  • O grande acusador e tentador (Mt4).
  • Um mentiroso que intenta destruir qualquer possibilidade de que desfrutemos plenitude sexual.

A bíblia o descreve como o “Príncipe deste século” e “deus desta era” (Jo 12.31; 2 Co 4.4), tais títulos sugerem sua influência sobre a sociedade organizada, e sobre um sistema de pensamentos que visa distanciar o homem de Deus e alavancar o erro e a morte.

No entanto, Jeremias nos diz: “Por que, pois, se queixa o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.” (Lm 3.39). Queixa-se dos problemas, daquilo que nos falta, da conduta dos outros ou do Diabo é inútil, se não estamos dispostos arcar com a responsabilidade e as consequências de nossos erros. Dar a Satanás um papel de protagonista dentro do enredo de desobediência pessoal é um subterfugio infantil que nos aprisiona ainda mais aos nossos vícios. Ele, portanto, é coadjuvante.

Episódio retratado em tela por Rob Leinweber

Para nos orientar neste tema, recordemos a abordagem do profeta Natã, na ocasião em que confrontou o rei Davi por conta do adultério com Bate-Seba e do assassinato de Urias. O diálogo começa com uma história sobre a maldade de um homem rico. A princípio o rei não entendeu que seu pecado escondido era o tema da conversa, então o profeta disse: Tu és o homem.” (2 Sm 12.7). Sim! Aquele homem rico e mal da história que acabara de contar.

Imagine se Natã tivesse dito: “A culpa é do demônio, é claro que Bate-seba estava cheia de ‘pomba-gira’ e Urias foi morto por Satanás. Você foi, inocentemente, levado pelo Maligno sensual ao adultério”.

Felizmente, Natã foi “profético” sem fornecer justificativas “espiritualistas” para o pecado. E, a história de Davi terminou em confissão e arrependimento. Esse é o caminho correto para lidarmos com a transgressão sexual.

Em contrapartida, na ficção de Tolstoi, a obra nos traz dois finais sugeridos. Em um deles, Evgueni mata sua amante – a quem chama de “Diabo”. No outro, ele se suicida.

Na vida real, também termina assim. Sem assumir responsabilidades, ou ferimos os outros, ou –nos afastamos, definitivamente, da vida plena de Deus.

Brena Riker é líder do Ministério Ser e pastora da Igreja Batista Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. Formada em Letras pela UFPA e em Fundamentos em Aconselhamento na Jocum Chile. Casada com David Riker e mãe da Nataly e do Pedro.