Como falar de sexualidade nos pequenos grupos

Os pequenos grupos (células, grupos de interação etc.) são uma realidade em diversas denominações cristãs. Possuem a finalidade de evangelizar de maneira descentralizada e melhor acolher os cristãos no início de sua jornada. Dentro desta missão, os líderes recebem indivíduos com demandas surpreendentes. E, muitos agem e reagem de maneira equivocada quando se veem obrigados a tocar no assunto da sexualidade.

Dependendo da finalidade do grupo, talvez não seja o ambiente ideal para aprofundamento de discussões teológicas que permeiam esse tema. No entanto, a informalidade destas reuniões, a proximidade natural dos membros, a “deseducação” sexual da maioria e a oportunidade de se fazer perguntas, comporão um terreno de intimidade e confiança. Condições adequadas para se falar sobre aquilo que nas atmosferas eclesiástica e familiar não se tem coragem de tratar. Por isso, os que dirigem tais grupos precisam se preparar.

Pensemos em alguns princípios importantes que os líderes devem observar:

Dar tempo para ouvir é importante para os pequenos grupos.

ANTES DE FALAR, OUÇA. “O silêncio é um espião” assim nos ensinou o poeta Mario Quintana. Ouvindo atentamente, entendemos o próximo, descobrimos suas trincheiras mais bem protegidas, seus medos e dúvidas mais desconcertantes. Podemos “conquista-lo” como se conquista uma cidade: espiando suas forças e fraquezas.

Corroborando essa ideia Salomão afirmou que há “tempo de estar calado e tempo de falar” (Ec 3.7). Ouvir, portanto, é tempo gasto. É filho da paciência. Por isso, se torna um ato de amor que comunica a essência do nosso Deus. Ele é alguém que tudo sabe, mas que está sempre ouvindo nossas orações. Em pequenos grupos devemos criar um espaço seguro e protegido para que todos digam o que precisar ser dito. Cuidando para não haver monopolização da fala pelo lider ou por outro membro do grupo.

Não deixe a vergonha impedir a clara e audível explanação sobre o tema.

QUANDO FALAR, FALE CLARAMENTE. Devido a carga vexatória que, naturalmente, a sexualidade carregara. As vezes, falamos de maneira obscura, geral e com uma superficialidade epidérmica. Isso empobrece a comunicação e frustrar a expectativa do ouvinte. E, dar a entender que o assunto nos incomoda. Ao se referir a pênis, vagina, pornografia, masturbação, orgasmo ou homossexualidade não use eufemismos limitadores que, no fundo, refletem a sua inadequação frente a esses vocábulos. As pessoas percebem quando há clareza e um diálogo aberto, e se sentem convidadas a interagir. Porém, cuidado com a linguagem vulgar. O objetivo não é ser constrangedor e indecoroso.

Avalie seus preconceitos, e a maneira como você vê determinados “tipos” de pecadores.

FALE COM GRAÇA. Muitos líderes erram em serem extremamente agressivos quando abordam temas morais, isso fomenta a exclusão preconceituosa e municia os opositores. Lembremos que não temos a permissão de julgar as pessoas. Não somos chamados a condenar os ímpios a partir de uma lista de iniquidades. Deus não nos deu uma hierarquia de transgressões, isso foi uma invenção da religião. Em essência, todos os pecados são iguais, mesmo que tenham consequências diferentes.

Nossa missão obrigatória como igreja é receber qualquer ser humano de maneira graciosa e comunicar-lhe esperança. Portanto, fale sobre a sexualidade como algo positivo, criado e abençoado por Deus, e que encontra Nele, sua total realização. Dentro de um ambiente de acolhimento e empatia, teremos oportunidade de comunicar as duras verdades sobre o pecado. No entanto, isso não deve ser feito com um ar de superioridade. Avalie seus preconceitos, e a maneira como você vê determinados “tipos” de pecadores.

FALE COM AUTORIDADE BÍBLICA. Ainda citando Mario Quintana: “os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem”. Vemos muito analfabetismo bíblico hoje entre os cristãos. Isso é mortal, pois, supostamente, as Escrituras deveriam nortear nossa pregação e nossa defensa contra os argumentos deste mundo.

Portanto, leia, estude, pergunte e relacione a visão bíblica da sexualidade com o contexto cultural dos nossos dias. Não devemos basear nossa mensagem em opiniões próprias, em chavões evangélicos ou em textos isolados e mal interpretados.

Por exemplo, há quem afirme que masturbar-se é fazer sexo com um demônio, ou que todos os homossexuais estão possuídos por espírito maligno e foram automaticamente condenados ao inferno. Isso não conta com respaldo bíblico e é uma abordagem espiritualista muito comum, repetida pelos que não sabem lidar com a complexidade do tema, e buscam explicações simplistas.

Se você sabe a verdade, não há porque temer. Sempre com respeito e paciência a opinião do próximo.

FALE COM UMA CONVICÇÃO MADURA. Na Bíblia, sexo esta diretamente associada à ideia de casamento. A pós-modernidade, em contrapartida, relativizou todos os preceitos familiares e relacionais. Para seguir pregando o sexo como algo a ser desfrutado dentro do matrimonio heterossexual, faz-se necessário coragem e firmeza.

Não peça desculpa por suas convicções, mesmo que não sejam politicamente corretas. Se você as está comunicando em amor e humildade, não se intimide com possíveis reações desgostosas, ríspidas ou jocosas. Respeite o direito de discordância, e busque a paz com todos. Respeite a liberdade de opinião. Não fira a consciência de ninguém, forçando seu ponto de vista. Respeite o trabalhar de Deus na vida de cada um. Respeite o Espírito Santo em seu papel de convencedor.  Enfim, cultive convicções com raízes profundas e maduras, mas respeite as raízes dos outros.

Se sentirmos que nos falta o que dizer, ou se nos vemos diante de uma situação limite, na qual não se percebe uma saída clara, saiba pedir ajuda a pessoas idôneas que podem lhe direcionar. Você nunca terá todas as respostas. E, além disso, acesse o incrível cabedal de conhecimento de Deus. Eugene Peterson em sua versão do texto de Tiago 1.5 ensina assim:

Se vocês não souberem lidar com a situação por falta de sabedoria, orem ao Pai. É com muita alegria que Ele os ajudará! Vocês serão atendidos, e não serão ignorados quando pedirem ajuda”.

VASSALO. Marcio. Mario Quintana. Para viver com poesia. Ed. Globo. São Paulo – SP. 2010.

PETERSON. Eugene. A mensagem. Bíblia em linguagem contemporânea. Ed. Vida. São Paulo – SP. 2011.


David Riker é líder do Ministério Ser, pastor da Igreja Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. É teólogo pelo STBNA, formado em Arte-educação pela UFPA e graduando em Filosofia pela Uniasselvi. Marido da Brena Riker e pai da Nataly e do Pedro.

Como NÃO pregar o evangelho para alguém que vive a homossexualidade

No inicio do nosso ministério focamos a evangelização de travestis e homossexuais em zona de prostituição. Nossa abordagem era a amizade. Tentamos conhecer e participar, o mais próximo possível, da realidade deste grupo social tão discriminado. Essa não é uma maneira fácil de comunicar as boas novas, pois não se trata de um encontro pontual com alguém. A intenção era manter um diálogo contínuo. Visitá-los em suas casas. Demonstrar interesse genuíno e insistente por suas jornadas existenciais. Acreditávamos que esta era a forma mais eficaz de influenciar alguém e aproximá-la de Deus.

Sempre me lembro desse tipo de evangelização quando cristãos me perguntam sobre a maneira correta de anunciar o reino de Deus aos homossexuais presentes em suas famílias, escolas, vizinhanças ou trabalhos. Entendemos  que somos desafiados por Cristo, o “amigo dos pecadores” (Mt 11.19), a estabelecer laços de amizade sadios com eles, antes de tentarmos falar qualquer coisa. Portanto, como primeira contribuição deste texto, quero deixar claro: não veja um indivíduo com atrações homoafetivas como seu inimigo.

Pessoas na homossexualidade não são seus inimigos.

A amizade é a forma de amor alicerçado naquilo que temos em comum*. Mas, o que um cristão sexualmente abstinente ou tradicionalmente casado tem em comum com alguém que vive a homossexualidade? Ambos são humanos. São objetos do amor irremediável de Deus. E, são dignos de respeito.

Tendo isto em mente, nunca devemos pregar o evangelho com um ar de superioridade. Somos todos filhos do mesmo pai, a saber, Adão. Apesar do antagonismo de conceitos, estamos no mesmo nível. Somos a única humanidade existente. O problema é que, com frequência, vemos “o ser humano a partir de suas doenças”, como afirma o teológo e psicólogo Jean – Yves Leloup. Nutrimos um olhar inquisitivo, incapaz de dialogar. Uma postura surda aos anseios do próximo.

Não haja com ar de superioridade.

Muitos desenvolvem o ministério do “cisco do olho” (Mt 7.3), ansiosos em acabar com os problemas dos “inferiores”, causam “cegueira” em quem deveriam ajudar. Além, é claro, de negligenciar o cuidado com suas próprias mazelas.

Nada há mais humano do que a dignidade. É uma qualidade universal. Está no bojo daquilo que nos foi dado em Gênesis 1.26: “a imagem e semelhança de Deus”. Os indivíduos, por mais perdidos que estejam, possuem o reflexo da pessoa de Deus. E, a aplicação desta verdade independe se tais sujeitos vivem a homossexualidade ou a heterossexualidade. Logo, na proclamação do reino de Deus não desrespeite as ideias, a consciência, a história e a liberdade de ninguém. O evangelho é uma proposição do céu, não uma imposição religiosa.

Um exemplo de como não ministrar homossexuais esta em Lucas 9: 54 -56: “Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir? Jesus, porém, voltando-se os repreendeu e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.” Perceba que Jesus, se auto denominou como “Filho do Homem”, um título que o aproxima da nossa raça adâmica. Portanto, pare de pedir que Deus desça fogo sobre os gays. Lembre-se de que espírito somos, e de nossa inegável humanidade compartilhada com eles.

O amor de Deus não é uma conquista de esforço pessoal.

Além do que já está posto, vale salientar que o amor de Deus não deve ser pregado como uma conquista baseada no desempenho pessoal. O Senhor não começa a amar o homem a partir do momento em que este passa a crer, pelo contrário, “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Rm 5.8). E, mais: “Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19). Esse é um amor inabalável e derramado a todos. Amor que fez Pedro reconhecer “que Deus não faz acepção de pessoas” (At 10. 34).

Quando norteamos a evangelização por esse princípio não tratamos os homossexuais como seres diferenciados, como sujeitos mais impuros do que os outros, ou como uma espécie odiada por Deus com mais veemência. São pessoas normais que podem estar perdidas assim como qualquer outra.

Por isso, ao dialogarmos com eles, devemos nos concentrar na pregação do amor de Deus, na pessoa de Cristo e na chamada ao arrependimento que é dirigida a todo homem, e não na condição homossexual do nosso interlocutor.

O que quero deixar claro é: esqueça, por um momento, que está diante de um homossexual. Arrependa-se do seu asco preconceituoso direcionado a esse público. E, “desarme” sua abordagem evangelística de todo tipo de “guerra santa” contra os gays.

Arme-se, sim, da fraternidade, da solidariedade e proclame a “verdade em amor (Ef 4.15). Não centralize sua pregação na homossexualidade de ninguém. Concentre-se na necessidade que todos têm de conhecer o amor e a restauração propostas por Deus.


David Riker é líder do Ministério Ser, pastor da Igreja Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. É teólogo pelo STBNA, formado em Arte-educação pela UFPA e graduando em Filosofia pela Uniasselvi. Marido da Brena Riker e pai da Nataly e do Pedro.

Sexualidade, Gênesis e Apocalipse

Como medir a importância da sexualidade para Deus? Como poderíamos dimensionar a relevância cultural e espiritual que tal assunto possui tanto dentro da narrativa bíblica, quanto no cotidiano do homem moderno?

A atualidade do tema diz respeito às novas formas de enfrentamento de velhas questões. Os contextos, os termos psicológicos e os eufemismos com os quais chamamos os antigos pecados se modernizaram, mas vivemos os mesmos dilemas enraizados em nossa origem.

Precisamos conhecer nosso início, pois nosso destino redimido está desenhado na linha de partida, lá na pureza do Éden.

Adão e Eva desfrutavam de uma intimidade sexual perfeita, pois não havia as barreiras do egoísmo, da violência e dos julgamentos. Antes do pecado, vivia-se a plenitude das relações e a integridade dos sentimentos. Não havia crise de identidade ou doenças sexualmente transmissíveis.

Hoje, em contrapartida, vivemos uma realidade caída. Estamos todos como espelhos quebrados, que refletem desordem. O pecado nos rompeu, os vícios impedem a liberdade e a beleza das relações interpessoais, a sedução e a luxúria transformam as pessoas em objetos de conquista. O que era uma benção estonteante se manifesta como um campo no qual podemos colher muitas maldições. Nada disso estava no plano original de Deus para a sexualidade humana.

Jesus entendia como ninguém a real natureza da sexualidade: a conexão entre pessoas.

Jesus veio ao mundo na condição de celibatário, não possuía vida sexual ativa, porém entendia como ninguém a real natureza da sexualidade: a conexão entre pessoas. Ele viveu conectado com a gente, e por isso ensinou como se relacionar. Apesar de nunca ter sido um “garanhão” foi um homem sexualmente resolvido, e um mestre da intimidade. Ele é o nosso caminho de redenção. Jesus, o segundo Adão, trouxe dignidade e resgate a sua noiva.

Veja como a bíblia trata a relação entre a igreja e o Cristo: Um noivado. Em Gênesis temos o primeiro casamento (Adão e Eva), nos evangelhos vemos o noivado e a paixão de Cristo por sua amada noiva, e, finalmente, em Apocalipse lemos sobre o último e eterno casamento, as bodas do cordeiro, na qual todos seremos dele. No céu não há “solterice” crônica. Não há desconexão.

A bíblia trata a relação entre Cristo e a igreja como um noivado.

Dentro desta perspectiva, precisamos entender que o matrimônio se realiza plenamente no ato sexual. Nele é que se configura realmente o mistério de se tornar “uma só carne” (Gn 2:24). Por isso tanta ênfase na relação sexual na Bíblia. Fato que rompe com a visão cristã religiosa que cultua ignorância e demoniza o sexo.

A palavra grega “Apocalipse” significa “Revelação”. E, é exatamente disso que precisamos. Uma revelação da sexualidade segundo Cristo em sua conectividade relacional, em sua maestria na comunhão e respeito pelo outro e na sua obediência a Deus diante dos apelos eróticos. Necessitamos da revelação de quem realmente somos e de como estamos corrompidos.

Se desejamos cura, liberdade e sabedoria preventiva, devemos aprender com o Deus do sexo, o Deus da Bíblia. Ele foi o grande “designer” do intrincado sistema que liga o cérebro, os hormônios e as terminações nervosas que recebem o prazer. Ele tem o melhor pra nós.

Portanto, ouça a Deus, quando o problema for “picante”. Ele te ensina de “Gênesis” à “Apocalipse” falando sobre sua “origem”, “revelando” sua real identidade e os modelos saudáveis nos quais a benção do sexo será potencializada.

Abraço!


David Riker é líder do Ministério Ser, pastor da Igreja Missionária da Amazônia (IBMA) e pertence ao Exodus Brasil. É teólogo pelo STBNA, formado em Arte-educação pela UFPA e graduando em Filosofia pela Uniasselvi. Marido da Brena Riker e pai da Nataly e do Pedro.